sexta-feira, 25 de julho de 2014

Mensagem aos leitores - É hora de dar tchau

Queridos 17 leitores (se é que vocês são tantos assim),

desde junho meus escritos têm nova morada. Resolvi concentrar todas as minhas ideias, sobre qualquer assunto, em um só site, o Please Feed the Journalist. O site é parte de um projeto maior, mas que ainda está bem no começo. Clique no link, corra lá e me acompanhe na minha louca e excitante jornada rumo a novas formas de trabalhar e viver: http://pleasefeedthejournalist.com/.

domingo, 17 de novembro de 2013

"Reflektor" e o mito da transformação radical no rock

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Desde o lançamento do último álbum do Arcade Fire, "Reflektor", comecei a ponderar sobre o quão ingrata deve ser a carreira de um crítico musical. A necessidade de se ter uma opinião formada rapidamente, antes que algo novo vire passado, em um mundo onde as notícias não parecem durar mais do que cinco minutos, perturba o fluxo natural da apreciação pela arte e qualquer uma de suas manifestações.

Eu dou grande valor ao ato da fruição da música. Dar "play" em um disco nunca antes ouvido não é algo trivial para mim. Eu preciso de tempo com cada faixa, com cada ideia apresentada e com o conceito mais amplo que, normalmente, é a marca infalível de um grande álbum. Ouvir "Reflektor" na íntegra pela primeira vez foi uma experiência um pouco tensa. Tendo sido apresentada aos poucos, ao longo de semanas, a algumas faixas do álbum - a maioria em versões ao vivo -, eu ficava, a cada dia, menos otimista com o resultado final que o quarto disco da banda canadense parecia prometer.

Finalmente, no dia do lançamento oficial, 29 de outubro, tendo resistido com facilidade aos apelos de poder ouvir o álbum em alguma versão pirateada apenas para saciar uma curiosidade que, tivesse eu cedido, teria me levado a um certo arrependimento, cliquei no link de download enviado pelo site oficial da banda e carreguei meu iPod com "Reflektor", em toda sua glória de álbum duplo (não sem me irritar profundamente com a numeração caótica dos arquivos das faixas, algo que, no meu pessimismo anterior à primeira audição, considerei como presságio do que poderia ser a qualidade duvidosa do álbum).

Tendo sido exposta a versões ao vivo que, olhando em retrospecto, penso não fazerem nenhuma justiça ao álbum, minha excitação e expectativa iniciais foram dando lugar, aos poucos, à sensação de que o Arcade Fire talvez tivesse atingido seu primeiro platô de criatividade. Não é algo tão impensável - depois de um álbum tão coeso e claro em suas intenções artísticas como "The Suburbs", uma crise de identidade musical não deveria causar muita surpresa. É o dilema de quem chega ao topo - para onde vamos agora?

Nas primeiras audições, "Reflektor" parecia expressar alguns objetivos claros também. O Arcade Fire, apesar da pletora de membros, é uma banda calcada basicamente na dinâmica artística entre o casal de letristas e compositores Win Butler e Régine Chassagne. A carreira do grupo é, de certa forma, também o registro vivo do relacionamento dos dois, juntos desde 2000 (o primeiro EP da banda é de 2003, ano em que eles se casaram). Portanto, todos os álbuns, de alguma forma - algumas vezes óbvias, outras nem tanto - podem ser vistos como documentos e retratos da evolução dos dois como casal.

O que difere "Reflektor" dos álbuns anteriores é a aparente divisão, nas letras das músicas, do que, até então, parecia ser uma única persona, em duas entidades que se examinam na pequena distância permitida por uma vida passada entre estúdios de gravação e ônibus de turnês. Duas entidades que, talvez, já não saibam muito bem os limites que as separam e que, portanto, menos se complementam em suas diferenças e mais se refletem - o nome "Reflektor", definitivamente, não é um acaso.

Mas, apesar da aparente clareza conceitual, falta a "Reflektor" a força dos álbuns anteriores. Não parece mais haver desespero em expressar um sentimento que, com a dose certa de urgência, conclamava jovens almas afins em chamados de apelo grandioso, como ouvido antes em músicas como "Rebellion (Lies)" e "No Cars Go". O novo álbum, em comparação com os que o precederam, soa mais como o lamento de uma banda em crise de meia-idade, perturbada pelas intrusões da fama e preocupada com questões bem mais individuais do que alienação juvenil - como, talvez, a dificuldade de se equilibrar a vida de rockstar com os ossos do ofício da vida familiar.

Nada disso diminui o brilho de alguns dos momentos mais geniais do álbum, como "We Exist", "Joan of Arc" e "Afterlife", mas, ao contrário do que fãs mais pernósticos possam dizer (aqueles mesmos que insistiam que o primeiro álbum da banda era o melhor deles até então, numa demonstração de descrédito às obras posteriores do grupo), "Reflektor" não é o melhor álbum do Arcade Fire - ouso dizer que não é nem mesmo o melhor álbum de 2013 (prefiro dar este título à outra banda, a inglesa Savages).

Sem entrar no mérito do que considero a primeira falha na carreira do Arcade Fire - o fato de que, no novo álbum, as influências musicais do grupo estão muito mais evidentes, em alguns momentos quase chegando a soar como plágio - "Reflektor" parece ser o álbum errado no momento errado, uma expressão do enfado de artistas que, apesar de constantemente laureados com o título de "melhor banda de rock da atualidade" (com o qual só me resta concordar), não parecem estar tão (ou há tanto tempo) expostos à máquina de moer carne da indústria fonográfica a ponto de estarem aparentemente tão saturados com o estado de coisas que os envolve, artisticamente falando.

Antes do lançamento do álbum, com as pistas dadas pela banda de que eles estavam assumindo uma nova direção criativa, que os pintava com cores menos sisudas e mais como pessoas que, aparentemente, sabem rir de si mesmas, não consegui deixar de enxergar paralelos com uma transformação parecida, mas ainda mais radical, de outra banda que também sofria com o estigma que persegue o Arcade Fire (o de bandas que ainda acreditam que a música pode mudar o mundo). 

Na véspera do Ano Novo em 1989, depois de dois anos em uma montanha russa que os colocou no topo do mundo e, por isso mesmo, os tornou alvos fáceis do cinismo corriqueiro da crítica musical, os membros do U2 resolveram, nas palavras de Bono, dar um tempo e "sonhar tudo outra vez", antes que pudessem se tornar pastiches de si próprios. Depois de pouco menos de dois anos fora do radar, a banda ressurgiu, em 1991, com aquele que pode ser facilmente considerado não só o seu melhor disco, mas um dos melhores álbuns de rock de todos os tempos. "Achtung, Baby" é, para todos os efeitos, uma obra prima auditiva (e, com o lançamento da turnê mundial ZooTV Tour, também visual) em 12 atos, em doses iguais misteriosa, rica, provocadora, chocante e inovadora em seu esforço de capturar o zeitgeist de uma Europa pós-queda do muro de Berlim (cidade em cujo lendário Hansa Tonstudio a banda criou o material que serviria como base para o álbum, e que inspirou largamente os conceitos explorados ao longo das 12 faixas, em especial na fantástica e até hoje inigualável "Zoo Station").

O que difere "Achtung, Baby" de "Reflektor", para além das desvantagens artísticas que o último tem em relação ao primeiro, é principalmente a medida do esforço empregado por ambas as bandas para se livrarem de rótulos e poderem explorar com liberdade seu largo alcance criativo, com relação ao tamanho desses rótulos e o peso de ter que carregá-los. Quando, em 1989, o U2 decidiu sair temporariamente de cena, eles eram, de fato, a maior banda de rock do mundo naquele momento. Eles eram parte importante do mainstream e seu nome era reconhecido ao lado de gigantes da época. Por mais incrivelmente talentosos e inovadores que os membros do Arcade Fire sejam, e por mais apaixonados (e apaixonantes) que sejam seus esforços em fazer músicas que querem mudar o mundo, seu status global ainda não está perto daquele alcançado pelo grupo irlandês quase 25 anos atrás. 

Por esse prisma, "Reflektor" parece uma resposta exagerada e radical demais para um problema que não parece ser tão grande assim - ou que, talvez, ainda nem exista de fato. O final de "The Suburbs", bem como a turnê que acompanhou o álbum, prenunciavam a possibilidade de algo ainda mais genial que estaria por vir, de uma banda cujos recursos musicais e criativos pareciam não ter fim. O que "Reflektor" sugere é que esses recursos não são realmente infinitos, e que o Arcade Fire parece firme no propósito de garantir seu lugar no panteão dos gigantes do rock - e "Reflektor" seria o atalho para que, finalmente, eles se tornassem tão grandes quanto seus fãs e muitos críticos acreditam que eles são. A julgar por uma parcela considerável de críticas e opiniões positivas, que beiram à histeria em sua defesa desmedida ao álbum, esse atalho funcionou (pelo menos em parte).

Julgando apenas em termos musicais, "Reflektor" é um bom álbum, com seus maus momentos (é incompreensível que uma banda tão brilhante tenha sido capaz de incluir faixas tão anêmicas como "You Already Know" e "Porno" - que talvez funcionassem melhor como lados B de singles - na listagem final do disco) compensados por clássicos instantâneos, como as já mencionadas "We Exist", "Joan of Arc" e "Afterlife", além de "It's Never Over (Oh Orpheus)", e hits apropriados para pistas de dança, como a faixa título, "Normal Person" e "Flashbulb Eyes", com seus sutis toques de reggae, dub e dancehall. 

Em termos estéticos, porém, a transformação visual da banda em algo que lembra uma versão gentrificada de um grupo de salsa parece mais uma demonstração do esforço exagerado que o Arcade Fire empreende no intuito de se libertar dos limites impostos pela crítica, pelos fãs e pelos seus álbuns anteriores. O que eles não parecem ter entendido, tristemente, é que suas obras anteriores não os sentenciavam a se manter dentro de uma fórmula de sucesso que os condenaria a um futuro de ridicularização pública (vide o próprio U2). Sua pressa em realizar a profecia de se tornarem, de fato, a maior banda de rock do mundo é o que parece tê-los verdadeiramente condenado a repetir, desta vez como pastiche, a receita da transformação radical como caminho para a conquista e dominação definitiva do cenário musical.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A difícil arte de crescer

Ela era pequena e não sabia
Tinha planos e sonhos, mas quem não os tinha?
Esperava crescer até conquistar seus desejos
Até sonhar com o que ainda era invisível
Mas mal sabia
Que tinha que crescer
Apenas para aprender a sonhar
Com o que era possível

Ficou presa no esforço de crescer
Seus braços soltos se embolaram
No desejo de partir
Seu corpo todo dizia, 'deixe-me ir'
Mas seu sonho, tão imaculado
Tirou-lhe o ímpeto de fugir
Criou uma prisão em seu caminho

Sem cordas, sem tranças
Sem príncipe ou salvador
Sua ruína parecia estar perto
Preferiu ceder ao pânico
Amigo eterno em sua vida

Acordou um dia empapada de suor
Seu pescoço, endurecido, não a deixava olhar para trás
Foi obrigada a ver o que não queria
Que sua vida não era um jogo para apostadores
Que sua opção não poderia ser só a fuga
Que correr não era uma saída

Enxergou como se nunca houvera antes
Compreendeu como se nunca soubera
Sua vida não era um jogo de sorte
Seu destino não era uma rifa de valores
Seus olhos estavam exaustos e seu corpo pedia
Preso em um nó
Que sua mente o deixasse partir

Entendeu que a vida que vivia
Era só para si
E que isso já bastava para ser infeliz
Crescer era seu problema
Seus ossos não tinham para onde expandir
Sua casa, pequena
Já não cabia mais dentro de si











quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Long road to recovery

No caminho para a cura
Existe um céu colorido por mãos inocentes
Por mãos que só enxergam hoje
E não antecipam o amanhã

No caminho para a cura
Existem pedras que se soltam
E fazem o caminho ser tornar perigoso
Mas apenas quando não se presta atenção

No caminho para a cura
Existe uma mão que segura
E outra que empurra com a mesma força
E as duas são um caminho para a salvação

No caminho para a cura
Escuto uma música que me lembra de tudo
De tudo o que foi e o que não existiu
De tudo que ainda pode existir

No caminho para a cura
Sinto um abraço que chega devagar
Sinto o toque do novo e do antigo
E escolho qual caminho seguir

No caminho para a cura
Eu encontro quem eu sou
Eu amo o que eu sou
Eu curo

domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Meia-noite em Paris" e o apego ao passado e à alteridade

Depois de cometer o pecado imperdoável de não assistir ao mais recente filme do Woody Allen enquanto ainda estava em cartaz (daqui a pouco cometo o mesmo erro com o novo do Almodóvar), me redimi parcialmente assistindo à "Meia-noite em Paris" em casa. Quem já viu, conhece a história - e quem não viu, vá ver, porque é maravilhoso e eu não vou escrever uma sinopse.

Continuando, o filme é lindo, Paris é linda, Owen Wilson mandou muito bem e o Woody Allen finalmente conseguiu diluir a nuvenzinha preta de paranoia que sempre paira sobre a cabeça de seus protagonistas (e que já estava gasta há alguns filmes). O sentimento que permeia esse filme (acompanhado do medo da morte, sempre presente no universo woodyalleniano) é a nostalgia, o apego a um passado não necessariamente vivido, mas apenas idealizado.

O protagonista entra numa espiral digna do clássico oitentista "De Volta Para o Futuro", motivada, de certa forma, por sua idealização de uma Paris em que, de forma mágica, todas as artes viveram seu auge simultaneamente (para quem quiser jogar um pouco mais de luz sobre essa época, a Paris dos anos 1920, recomendo a leitura de "A Autobiografia de Alice B. Toklas", de Gertrude Stein, que também é "personagem" do filme e cujo livro provavelmente deve ter inspirado o Sr. Allen). Quem não iria querer presenciar um momento da Humanidade em que as vidas e as criações de Pablo Picasso, Salvador Dalí, Henri Matisse, Man Ray, Ernest Hemingway, F.Scott Fitzgerald, Cole Porter e Coco Chanel - só para mencionar alguns - se tangenciaram e conviveram de forma simultânea, formando uma massa de energia criativa cujo impacto sentimos até hoje?

Mas a bandeira mais realista que o filme levanta (afinal, o que há de realista em viajar ao passado e cair no meio de uma festinha do Jean Cocteau?) é a de que, por mais que se busque a perfeição do passado (no filme essa busca se dá pela arte), sempre estaremos presos ao presente. Não há máquina do tempo que possa fazer com que uma pessoa se sinta à vontade em um tempo que não é o seu, não importando o quanto o zeitgeist do passado combine mais com seu caráter e suas crenças. Ou, como diria o personagem principal de "Meia-noite em Paris", "essas pessoas (do passado) não têm antibióticos". Quem, afinal, iria querer viver em um mundo sem antibióticos?

Sem entrar muito na história do filme (e estragar o prazer de quem ainda não o assistiu), a reflexão que me sobrou encontra um paralelo na minha relação com o Rio de Janeiro. O passado parece muito bom até o momento em que você se dá conta de que, para estar lá, teria de abrir mão de tudo o que pertence ao tempo atual (e isso não se restringe aos avanços tecnológicos - isso afeta relações, vínculos afetivos). Trouxe o Rio para o meio dessa conversa porque, até conviver mais de perto com a visão que pessoas de fora têm da cidade, sempre pensei em como a vida seria melhor se eu vivesse em qualquer outro lugar que não fosse aqui.

De fato, quando um termômetro de rua registra 40° C no verão eu realmente me pego querendo me mudar para uma província gelada no Canadá, mas aprendi uma lição preciosa nos últimos tempos que tem servido bem ao meu propósito de viver uma vida de confortos e prazeres simples. Passei a ver a cidade com um olhar um pouco estrangeiro, uma mescla do cinismo que é essencial a todo carioca com uma dose de inocência que me permite enxergar o lado leve e bonito da cidade, seus pequenos luxos diários que não custam absolutamente nada e que tiram um pouco do peso de se viver numa metrópole suja, barulhenta e pobre de atitudes cidadãs. É como um relacionamento - você ama aquele sujeito, mas há momentos em que tudo o que você queria era jogá-lo na linha do metrô. Aí você lembra das pequenas atitudes que te trazem um sorriso nos momentos ruins e a vida parece um pouco melhor. Aposto que os parisienses devem pensar a mesma coisa.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Retomando

Então, em um dia quente em meio ao frenesi carnavalesco, sob o jugo de uma persistente crise alérgica, eu resolvo que quero voltar a escrever sobre nada. Mas sobre o que escrever? Sobre o calor, sobre o Carnaval, sobre secreções nasais e gargantas inflamadas, sobre crises e reencontros? Sobre o que falar? Distâncias, separações, beleza? A música que não sai dos meus ouvidos? O desejo que paira na ponta dos meus dedos por arte e satisfação? 

Sobre o que escrever?

domingo, 17 de abril de 2011

A internet e a festinha particular

Ontem, sábado, comecei a acompanhar a transmissão ao vivo, via Youtube, do sensacional festival californiano Coachella. Muitas bandas das quais eu nunca tinha ouvido falar tocaram (algumas me agradaram bastante), outras mais ou menos conhecidas também deram as caras, e a noite terminou com uma apoteose musical do Arcade Fire. Na última terça-feira (13/04), já tinha ido à loucura graças a uma transmissão de aúdio ao vivo, do portal Terra, do último show do U2 no Brasil. Bono, no alto de sua sabedoria, pediu aos fãs que registrassem aquele show, porque ele era especial. Era um estímulo nem um pouco velado à "pirataria" para uso próprio (porque para comercialização - perdoem o palavreado - é p*taria mesmo).

É sempre um alento ouvir da boca de um mega-super-hiper-ultra rockstar e mesmo de outros artistas de calibre ligeiramente menor que esse tipo de "pirataria" não deveria ser considerada um crime. Afinal, quantos artistas não ganham projeção e centenas de milhares de novos fãs graças ao download "ilegal" de músicas? E quantos desses novos fãs não lotam os shows desses artistas e acabam, por fim, comprando seus álbuns? E, nesse caso específico, qual é o mal de se registrar um momento único, que não necessariamente vai se transformar em um álbum oficial da banda - e, portanto, pode nunca mais estar disponível aos fãs?

Mas, enfim, nem era sobre isso que eu queria falar. Eu queria falar mesmo é sobre essa maravilha que a internet proporciona, com essas transmissões ao vivo de shows e festivais. Para mim, são como festinhas particulares, e ontem eu senti isso com ainda mais força quando eu, um amigo que mora em outra cidade e outro amigo que está na Argentina ficamos trocando ideias no Facebook enquanto assistíamos aos shows do Coachella. Era sábado à noite, em tese aquele dia da semana em que todo mundo quer ir mesmo é para rua, mas estávamos nós três - e, posso garantir pelos comentários no Twitter, milhares de outras pessoas em outras partes do mundo - em casa, assistindo, "de grátis", a um evento de grandes proporções e recheado de boa música.

É nessas horas que eu consigo dimensionar o quanto a internet mudou nossas vidas para melhor. Além de outros benefícios óbvios (e outros nem tanto), a Rede ainda nos proporciona poder fazer parte, mesmo que à distância, de acontecimentos com enorme capacidade de mobilização. Imaginem se, em 1989, pudéssemos ter acompanhado, pela internet, à queda do Muro de Berlim? Ou se (para quem é fã), em 1992, tivesse sido possível assistir a um dos shows da Zoo TV Tour, a turnê mais fanstástica que o U2 já colocou na estrada? 

Não é incrível poder se sentir parte de coisas tão grandiosas mesmo estando em casa, à frente de um computador? Eu agradeço aos Céus pela internet quando posso ter uma experiência do tipo. Se você não pode ir até a montanha, a montanha vem até você - e, quem sabe?, ainda pode render uma gravação que ficará para sempre no iPod.

sábado, 16 de abril de 2011

Da importância do isolamento

O ser humano é um ser social. Aliás, acredito que a maioria dos animais que povoa a Terra deva ter uma natureza gregária. Por anos (mas, ainda hoje), vivemos em tribos, nos dividimos em clãs, marcamos nosso pedaço de terra de acordo com crenças e leis que regiam e informavam pensamentos e ações dos indivíduos que faziam parte do todo. É bem provável que eu esteja redondamente enganada (historiadores e filósofos, me acudam), mas penso que a noção atual de indivíduo só tenha começado a tomar forma com o Iluminismo (toda aquela história do "Cogito ergo sum" e por aí vai).

Mas, por mais modernos e prafrentex e avançados e tecnológicos que sejamos, nós ainda mantemos algumas instituições que se orientam por uma lógica comum ao grupo, que delimitam o escopo de nossas decisões e nos levam, diariamente e aos borbotões, às salas de psicologos e psicanalistas, onde tentamos desfazer o emaranhado de noções alheias para encontrar nossa noção própria, nossos próprios códigos de conduta. Onde estaríamos sem essa teia de "eu penso"-s e "eu acho"-s que ouvimos todos os dias e internalizamos e confundimos com o que, de fato, pensamos e achamos?

O que você vê quando um mendigo cruza o seu caminho em uma calçada? Você vê um proscrito da Sociedade ou alguém que se libertou da teia? E quando você está indo trabalhar e entra uma pessoa no ônibus ou no metrô que desata a falar sozinha? É loucura ou é liberdade? Quantas vezes você não quis ser essa pessoa? A pessoa que abriu mão, consciente ou inconscientemente, do superego?

Mas, sendo todos nós seres funcionais (ou tentando ser), essa opção não é válida. É preciso manter um fio de normalidade que conduza nossas atitudes e nos mantenha o mais perto possível daquele quadradinho em que as regras ainda valem e você ainda é parte de um todo coletivo e dominante. O que nos resta então, se a loucura não é possível?

Penso que a resposta está no isolamento periódico da alma - seja por meio de uma meditação transcendental ou de umas porradas em um sparring - e na arte, em qualquer forma ou estilo. A arte é um pouco de loucura, mas ainda é uma loucura funcional, se é que isso é possível. E o isolamento da alma é o que permite a cura ou, pelo menos, a melhora temporária das feridas emocionais e psicológicas. 

O isolamento pode nos fazer, ainda, controlar e acalmar a ira. Não dá para matar ou socar todas as pessoas que tiram você do sério. Por mais que isso seja tentador. Eu que o diga.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Os diversos estágios da raiva

Todo mundo já sentiu raiva um dia. Basta ser para sentir qualquer coisa, e raiva é um sentimento (ou sensação, ou estado de espírito) que é tão humano quanto chorar assistindo à cena em que a mãe do Bambi morre. Mas não é por ser algo assim, tão inerente à nossa existência, que não seja passível de sofrer alterações ao longo do tempo.

Passei a acreditar que passamos por estágios da raiva. Nada a ver com aquele Modelo de Kübler-Ross, ou os cinco estágios do luto. Não penso nos estágios da raiva como um processo contínuo, mas sim como gradações de raiva para as quais evoluímos (ou involuímos) à medida que amadurecemos e aprendemos a lidar com a terrível e inevitável verdade de que nem tudo na vida acontece conforme desejamos.

Já vivi o estágio primitivo da raiva, aquele em que nosso primeiro impulso é pegar o que estiver à nossa frente e jogar na parede - ou em alguém. Passei por um episódio assim há não muito tempo, por sinal (envergonho-me em admiti-lo - mas eu disse que esses estágios dependem do quanto o ser evolui ou involui. Não damos, muitas vezes, um passo à frente e dois para trás? Então...). Claro que o objeto foi jogado contra a parede, é bom que fique claro. Mas essa raiva, para chegar a esse nível, é porque mexe com algum ponto meu que ainda é muito sensível e pouco analisado/racionalizado. Quando a raiva está associada a/é resultado direto de algo que já foi razoavelmente processado por minha psiquê, sou capaz de senti-la de uma forma menos agressiva, mais silenciosa e serena (parece contraditório - e talvez seja mesmo).

Não sei até que ponto as poucas aulas de Hatha Yoga me ajudaram, mas hoje consigo me deparar com um situação complicada, passível de me enraivecer, e não reagir de forma colérica. Não é que eu não sinta raiva - eu simplesmente a processo internamente e converso com ela. É, eu dialogo com a minha raiva. E, quando isso acontece, eu normalmente concluo que o agente causador da raiva (seja uma pessoa, uma coisa ou uma situação) não é digno do mau uso da minha energia.

Acho até que dá para transformar isso em um axioma matemático. Quanto menor a significância do agente motivador, menor é a energia dispensada à raiva que ele provoca. Pense nisso quando pessoas ou coisas insignificantes, ou situações que fujam totalmente ao seu controle, te colocarem em um estado de raiva incontrolável. Processe o sentimento, converse com ele e fique em paz consigo próprio. Suas células agradecem.

terça-feira, 22 de março de 2011

Aprendendo novos truques

Você conhece aquele ditado - "a cachorro velho não se ensinam novos truques". À parte a impropriedade contra os cães idosos (que devem ser excelentes companheiros para quem os tem e os ama), o ser humano parece viver à sombra dessas palavras, como um destino do qual não se foge - é assim para todos nós, então para quê lutar?

Eu me peguei levando essa vidinha "mais ou menos", cheia de velhos truques (isso me lembra um outro ditado, o do pônei) e achando, conscientemente, que estava tudo bem - era assim que deveria ser. O lado inconsciente - aquele pobre que matamos todo dia um pouco mais -, já meio em coma, ainda teve alguma força para sussurrar no meu ouvido: "essa vida não te satisfaz".

Comecei a ouvir esse sussurro ouvindo música. Rolava aquele disquinho branco do Ipod e não achava mais nada que me satisfizesse. Eu gosto de (quase) tudo que estava na minha biblioteca musical, mas meu anseio era por algo que eu ainda não conhecia. Queria algo novo, mas não sabia o quê. Até que um feliz encontro com o acaso me abriu uma portinha que eu ainda não tinha visto no lusco-fusco do meu quarto metafísico.

Resumindo, em pouco mais de dois meses consegui matar um pouquinho dessa sede por novidade e, de quebra, ainda ganhei mais uma banda favorita de todos os tempos (e outra que entra fácil no Top 15). Fora o ganho emocional de recuperar o meu prazer em ouvir coisas novas, que eu havia posto de lado ao criar uma enorme resistência ao que se faz atualmente no rock mundial (é o meu estilo preferido, é bom esclarecer logo).

Pensava que, se eu cedesse aos apelos de uma só banda, seria uma vendida, uma traidora do movimento (a experiência de comprar - e depois odiar - o álbum de estreia do Strokes logo após o lançamento me criou um trauma profundo). Mas eu só estava traindo a mim mesma, à garotinha de 15 anos que assistia a todos os programas da MTV (na época em que ainda era um canal de música) e sabia o nome de todas as bandas nos Tops 10 e 20.

Essa garotinha acordou de novo, já à beira dos 30, e não quer recuperar o tempo perdido, porque o tempo não se perdeu. Mas ela não quer mais ser trancada numa portinha escondida, para dar lugar a uma adulta cheia de truques velhos. Essa garotinha de quase 30 conhece alguns novos truques e quer colocá-los em prática.

Então, você aí que está lendo, pode usar a área de comentários para sugerir truques novos, quer dizer, bandas novas para a blogueira que está com os ouvidos (muito) abertos. Quem sabe eu não ganho mais uma banda favorita?

segunda-feira, 21 de março de 2011

A imbecilização da mulher como um fenômeno social (?)

Em meu primeiro post, falei sobre como a propaganda brasileira robotiza e desensibiliza a mulher, retratando-a como uma super-mãe-esposa-profissional cujo sonho dourado é prover sua casa com amor, carinho, harmonia e limpeza, muita limpeza. É uma mulher faz-tudo, que, se bobear, ainda pinta as paredes e conserta o motor do carro do marido. Mas essa mulher não parece existir só nos comerciais de TV. Ela é real - muito real.

Hoje uma amiga perguntou-me se eu havia lido o último texto da Martha Medeiros, sobre o questionamento metafísico entre chutar ou não o pau da barraca, quando, em resumo, a mulher é o próprio pau que mantém a barraca em pé. Comentei que havia lido o texto, e que ele havia me agradado até o ponto em que Martha começa a digressionar sobre as vicissitudes da mãe-mulher-esposa contemporânea, cuja prole e marido não conseguem ao menos limpar suas partes íntimas sem a orientação da figura feminina, sempre presente. Foi aí que o texto começou a me irritar profundamente, porque tocou em um ponto bastante sensível para mim.

Essas mulheres "modernas" parecem sentir uma enorme satisfação e orgulho por poderem se queixar que, ó Céus, seus maridos e filhos não vivem sem sua infinita bondade. Elas vivem para uma espécie de diatribe em que os outros figuram como eternos vilões - são os filhos que não têm nenhuma responsabilidade ou independência, ou o marido que não se presta a dividir as tarefas domésticas - quando não é o chefe que não entende que hoje, justo hoje, ela está com uma cólica daquelas e, por isso, não está no humor para entregar um relatório com os resultados do trimestre.

Essa é aquela mulher que, cria da liberdade sexual do fim do século XX, foi programada para a independência financeira e para o sucesso profissional. E é essa mulher que, hoje - quase 50 anos depois de Betty Friedan ter escrito seu "The Feminine Mystique" e decifrado, em parte, o desespero feminino -, joga no lixo as conquistas de suas antecessoras e cria filhos incapazes de tomar as rédeas de suas próprias vidas (além de perpetuar o arquétipo do marido imprestável). Essa mulher é a mesma que se desespera quando percebe que o peso do mundo, que ironia, descansa todo sobre seus ombros cansados. Essa é a mulher que escolheu ser uma equilibrista porque acredita que é possível ser perfeita em todas as frentes - afetiva, familiar e profissional.

E com que direito essas mulheres - que fizeram escolhas e hoje pagam o preço devido por se acreditarem entidades dotadas de superpoderes - se entregam a queixumes? Suas vidas são fruto de escolhas equivocadas, superlativas, egocêntricas e narcisistas, mas o que seria delas se não houvesse um homem no meio do caminho a quem culpar?

Quando as mulheres acordarem para o fato de que são elas suas próprias inimigas, será muito tarde para nós?

A imbecilização da mulher na propaganda

Quem assiste à TV com alguma frequência já conhece o grande clichê dos comerciais de produtos de limpeza. É sempre a mesma historinha: uma casa, uma família, às vezes um animal de estimação e uma mulher vestida de "mãe" limpando o banheiro ou a cozinha para deixar o lar mais saudável para o maridão e prole.

Ora ela passa um esfregão no chão, ora ela esfrega o carpete, ora lava uma imensa pilha de pratos ou um cestão de roupas. Nunca se vê nem a sombra de alguém ajudando essa super-mulher, que, se seguirmos a lógica sócio-econômica e antropológica que rege nossos tempos, também deve ser uma p*ta profissional e ainda deve ter uma performance estelar no campo sexual.

Alguém conhece essa mulher? Ela existe de fato?

Para mim, não há dúvidas de que ela existe. Mas, em um país onde mais e mais homens trocam de posição com as mulheres (sem trocadilho) e assumem o comando do lar, não seria de se esperar que a nossa tão celebrada e competente propaganda acompanhasse a passagem do tempo e transferisse parte desse papel de super-mãe-esposa-mulher para o sexo oposto e explorasse isso em comerciais?

Lembro-me de um comercial de TV italiano que eu vi há muitos anos atrás (muitos mesmo - numa época em que eu ainda tinha disposição para assistir à RAI), no qual um homem é deixado sozinho em casa por sua mulher, depois que ela fez uma impecável limpeza na cozinha. Mal ele fica sozinho, e a cozinha vira um chiqueiro (porque ele resolveu, vejam só, cozinhar). Desesperado com a possibilidade de ser enxovalhado pela esposa, o sujeito limpa a cozinha toda com o mesmo esmero que sua mulher a limpara momentos antes. Quando ela chega, não percebe nenhum sinal do que ele havia aprontado, e ele respira aliviado.

Essa propaganda deve ter, pelo menos, uns 10 anos. A Itália é um país latino assim como nós e, também como nós, deve ter sua alta dose de machismo. Mas lá alguém já tinha acordado para a perceptível mudança de papéis, e resolveu capitalizar sobre isso. Por que isso ainda não acontece no Brasil? E, o que é ainda pior, por que a mulher ainda é retratada nos comerciais como uma boneca robotizada cujo maior objetivo na vida é tornar a casa mais limpa para que seus filhos possam brincar à vontade no chão? Por que essa mãe de comercial de TV ainda é um ser tão unidimensional, quase uma caricatura de dona de casa dos anos 50? Cadê a inovação e a criatividade, tão caras à nossa publicidade, nessas horas?

Esse fenômeno me faz pensar, também, na idiotização do adulto nos comerciais (mas isso é papo para outro post). Vivemos, de fato, em uma era comandada por crianças e adolescentes, e a publicidade não tardou em pular nesse bonde e retratar a Geração Z como uma grande força motriz, capaz de interferir em todas as decisões importantes tomadas no âmbito familiar. A idiotização da mulher, nesse contexto, é só mais um aspecto do que é esse começo de século XXI - um século em que pegamos todas as conquistas do últimos quarenta anos do século anterior e jogamos pela janela, sem dó nem piedade. São mulheres que largam a carreira por causa dos filhos, homens que abandonam suas esposas porque elas já "passaram da validade", adolescentes que engravidam porque acreditam que sexo e maternidade nada mais são do que uma brincadeira de casinha de adultos. É um século de regressão a velhos e infelizes padrões.

PS: Será que isso aqui é um passo na direção da inversão de papéis?

http://www.mulheresevoluidas.com.br/index.php

Veremos.