domingo, 17 de novembro de 2013

"Reflektor" e o mito da transformação radical no rock

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Desde o lançamento do último álbum do Arcade Fire, "Reflektor", comecei a ponderar sobre o quão ingrata deve ser a carreira de um crítico musical. A necessidade de se ter uma opinião formada rapidamente, antes que algo novo vire passado, em um mundo onde as notícias não parecem durar mais do que cinco minutos, perturba o fluxo natural da apreciação pela arte e qualquer uma de suas manifestações.

Eu dou grande valor ao ato da fruição da música. Dar "play" em um disco nunca antes ouvido não é algo trivial para mim. Eu preciso de tempo com cada faixa, com cada ideia apresentada e com o conceito mais amplo que, normalmente, é a marca infalível de um grande álbum. Ouvir "Reflektor" na íntegra pela primeira vez foi uma experiência um pouco tensa. Tendo sido apresentada aos poucos, ao longo de semanas, a algumas faixas do álbum - a maioria em versões ao vivo -, eu ficava, a cada dia, menos otimista com o resultado final que o quarto disco da banda canadense parecia prometer.

Finalmente, no dia do lançamento oficial, 29 de outubro, tendo resistido com facilidade aos apelos de poder ouvir o álbum em alguma versão pirateada apenas para saciar uma curiosidade que, tivesse eu cedido, teria me levado a um certo arrependimento, cliquei no link de download enviado pelo site oficial da banda e carreguei meu iPod com "Reflektor", em toda sua glória de álbum duplo (não sem me irritar profundamente com a numeração caótica dos arquivos das faixas, algo que, no meu pessimismo anterior à primeira audição, considerei como presságio do que poderia ser a qualidade duvidosa do álbum).

Tendo sido exposta a versões ao vivo que, olhando em retrospecto, penso não fazerem nenhuma justiça ao álbum, minha excitação e expectativa iniciais foram dando lugar, aos poucos, à sensação de que o Arcade Fire talvez tivesse atingido seu primeiro platô de criatividade. Não é algo tão impensável - depois de um álbum tão coeso e claro em suas intenções artísticas como "The Suburbs", uma crise de identidade musical não deveria causar muita surpresa. É o dilema de quem chega ao topo - para onde vamos agora?

Nas primeiras audições, "Reflektor" parecia expressar alguns objetivos claros também. O Arcade Fire, apesar da pletora de membros, é uma banda calcada basicamente na dinâmica artística entre o casal de letristas e compositores Win Butler e Régine Chassagne. A carreira do grupo é, de certa forma, também o registro vivo do relacionamento dos dois, juntos desde 2000 (o primeiro EP da banda é de 2003, ano em que eles se casaram). Portanto, todos os álbuns, de alguma forma - algumas vezes óbvias, outras nem tanto - podem ser vistos como documentos e retratos da evolução dos dois como casal.

O que difere "Reflektor" dos álbuns anteriores é a aparente divisão, nas letras das músicas, do que, até então, parecia ser uma única persona, em duas entidades que se examinam na pequena distância permitida por uma vida passada entre estúdios de gravação e ônibus de turnês. Duas entidades que, talvez, já não saibam muito bem os limites que as separam e que, portanto, menos se complementam em suas diferenças e mais se refletem - o nome "Reflektor", definitivamente, não é um acaso.

Mas, apesar da aparente clareza conceitual, falta a "Reflektor" a força dos álbuns anteriores. Não parece mais haver desespero em expressar um sentimento que, com a dose certa de urgência, conclamava jovens almas afins em chamados de apelo grandioso, como ouvido antes em músicas como "Rebellion (Lies)" e "No Cars Go". O novo álbum, em comparação com os que o precederam, soa mais como o lamento de uma banda em crise de meia-idade, perturbada pelas intrusões da fama e preocupada com questões bem mais individuais do que alienação juvenil - como, talvez, a dificuldade de se equilibrar a vida de rockstar com os ossos do ofício da vida familiar.

Nada disso diminui o brilho de alguns dos momentos mais geniais do álbum, como "We Exist", "Joan of Arc" e "Afterlife", mas, ao contrário do que fãs mais pernósticos possam dizer (aqueles mesmos que insistiam que o primeiro álbum da banda era o melhor deles até então, numa demonstração de descrédito às obras posteriores do grupo), "Reflektor" não é o melhor álbum do Arcade Fire - ouso dizer que não é nem mesmo o melhor álbum de 2013 (prefiro dar este título à outra banda, a inglesa Savages).

Sem entrar no mérito do que considero a primeira falha na carreira do Arcade Fire - o fato de que, no novo álbum, as influências musicais do grupo estão muito mais evidentes, em alguns momentos quase chegando a soar como plágio - "Reflektor" parece ser o álbum errado no momento errado, uma expressão do enfado de artistas que, apesar de constantemente laureados com o título de "melhor banda de rock da atualidade" (com o qual só me resta concordar), não parecem estar tão (ou há tanto tempo) expostos à máquina de moer carne da indústria fonográfica a ponto de estarem aparentemente tão saturados com o estado de coisas que os envolve, artisticamente falando.

Antes do lançamento do álbum, com as pistas dadas pela banda de que eles estavam assumindo uma nova direção criativa, que os pintava com cores menos sisudas e mais como pessoas que, aparentemente, sabem rir de si mesmas, não consegui deixar de enxergar paralelos com uma transformação parecida, mas ainda mais radical, de outra banda que também sofria com o estigma que persegue o Arcade Fire (o de bandas que ainda acreditam que a música pode mudar o mundo). 

Na véspera do Ano Novo em 1989, depois de dois anos em uma montanha russa que os colocou no topo do mundo e, por isso mesmo, os tornou alvos fáceis do cinismo corriqueiro da crítica musical, os membros do U2 resolveram, nas palavras de Bono, dar um tempo e "sonhar tudo outra vez", antes que pudessem se tornar pastiches de si próprios. Depois de pouco menos de dois anos fora do radar, a banda ressurgiu, em 1991, com aquele que pode ser facilmente considerado não só o seu melhor disco, mas um dos melhores álbuns de rock de todos os tempos. "Achtung, Baby" é, para todos os efeitos, uma obra prima auditiva (e, com o lançamento da turnê mundial ZooTV Tour, também visual) em 12 atos, em doses iguais misteriosa, rica, provocadora, chocante e inovadora em seu esforço de capturar o zeitgeist de uma Europa pós-queda do muro de Berlim (cidade em cujo lendário Hansa Tonstudio a banda criou o material que serviria como base para o álbum, e que inspirou largamente os conceitos explorados ao longo das 12 faixas, em especial na fantástica e até hoje inigualável "Zoo Station").

O que difere "Achtung, Baby" de "Reflektor", para além das desvantagens artísticas que o último tem em relação ao primeiro, é principalmente a medida do esforço empregado por ambas as bandas para se livrarem de rótulos e poderem explorar com liberdade seu largo alcance criativo, com relação ao tamanho desses rótulos e o peso de ter que carregá-los. Quando, em 1989, o U2 decidiu sair temporariamente de cena, eles eram, de fato, a maior banda de rock do mundo naquele momento. Eles eram parte importante do mainstream e seu nome era reconhecido ao lado de gigantes da época. Por mais incrivelmente talentosos e inovadores que os membros do Arcade Fire sejam, e por mais apaixonados (e apaixonantes) que sejam seus esforços em fazer músicas que querem mudar o mundo, seu status global ainda não está perto daquele alcançado pelo grupo irlandês quase 25 anos atrás. 

Por esse prisma, "Reflektor" parece uma resposta exagerada e radical demais para um problema que não parece ser tão grande assim - ou que, talvez, ainda nem exista de fato. O final de "The Suburbs", bem como a turnê que acompanhou o álbum, prenunciavam a possibilidade de algo ainda mais genial que estaria por vir, de uma banda cujos recursos musicais e criativos pareciam não ter fim. O que "Reflektor" sugere é que esses recursos não são realmente infinitos, e que o Arcade Fire parece firme no propósito de garantir seu lugar no panteão dos gigantes do rock - e "Reflektor" seria o atalho para que, finalmente, eles se tornassem tão grandes quanto seus fãs e muitos críticos acreditam que eles são. A julgar por uma parcela considerável de críticas e opiniões positivas, que beiram à histeria em sua defesa desmedida ao álbum, esse atalho funcionou (pelo menos em parte).

Julgando apenas em termos musicais, "Reflektor" é um bom álbum, com seus maus momentos (é incompreensível que uma banda tão brilhante tenha sido capaz de incluir faixas tão anêmicas como "You Already Know" e "Porno" - que talvez funcionassem melhor como lados B de singles - na listagem final do disco) compensados por clássicos instantâneos, como as já mencionadas "We Exist", "Joan of Arc" e "Afterlife", além de "It's Never Over (Oh Orpheus)", e hits apropriados para pistas de dança, como a faixa título, "Normal Person" e "Flashbulb Eyes", com seus sutis toques de reggae, dub e dancehall. 

Em termos estéticos, porém, a transformação visual da banda em algo que lembra uma versão gentrificada de um grupo de salsa parece mais uma demonstração do esforço exagerado que o Arcade Fire empreende no intuito de se libertar dos limites impostos pela crítica, pelos fãs e pelos seus álbuns anteriores. O que eles não parecem ter entendido, tristemente, é que suas obras anteriores não os sentenciavam a se manter dentro de uma fórmula de sucesso que os condenaria a um futuro de ridicularização pública (vide o próprio U2). Sua pressa em realizar a profecia de se tornarem, de fato, a maior banda de rock do mundo é o que parece tê-los verdadeiramente condenado a repetir, desta vez como pastiche, a receita da transformação radical como caminho para a conquista e dominação definitiva do cenário musical.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A difícil arte de crescer

Ela era pequena e não sabia
Tinha planos e sonhos, mas quem não os tinha?
Esperava crescer até conquistar seus desejos
Até sonhar com o que ainda era invisível
Mas mal sabia
Que tinha que crescer
Apenas para aprender a sonhar
Com o que era possível

Ficou presa no esforço de crescer
Seus braços soltos se embolaram
No desejo de partir
Seu corpo todo dizia, 'deixe-me ir'
Mas seu sonho, tão imaculado
Tirou-lhe o ímpeto de fugir
Criou uma prisão em seu caminho

Sem cordas, sem tranças
Sem príncipe ou salvador
Sua ruína parecia estar perto
Preferiu ceder ao pânico
Amigo eterno em sua vida

Acordou um dia empapada de suor
Seu pescoço, endurecido, não a deixava olhar para trás
Foi obrigada a ver o que não queria
Que sua vida não era um jogo para apostadores
Que sua opção não poderia ser só a fuga
Que correr não era uma saída

Enxergou como se nunca houvera antes
Compreendeu como se nunca soubera
Sua vida não era um jogo de sorte
Seu destino não era uma rifa de valores
Seus olhos estavam exaustos e seu corpo pedia
Preso em um nó
Que sua mente o deixasse partir

Entendeu que a vida que vivia
Era só para si
E que isso já bastava para ser infeliz
Crescer era seu problema
Seus ossos não tinham para onde expandir
Sua casa, pequena
Já não cabia mais dentro de si











quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Long road to recovery

No caminho para a cura
Existe um céu colorido por mãos inocentes
Por mãos que só enxergam hoje
E não antecipam o amanhã

No caminho para a cura
Existem pedras que se soltam
E fazem o caminho ser tornar perigoso
Mas apenas quando não se presta atenção

No caminho para a cura
Existe uma mão que segura
E outra que empurra com a mesma força
E as duas são um caminho para a salvação

No caminho para a cura
Escuto uma música que me lembra de tudo
De tudo o que foi e o que não existiu
De tudo que ainda pode existir

No caminho para a cura
Sinto um abraço que chega devagar
Sinto o toque do novo e do antigo
E escolho qual caminho seguir

No caminho para a cura
Eu encontro quem eu sou
Eu amo o que eu sou
Eu curo

domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Meia-noite em Paris" e o apego ao passado e à alteridade

Depois de cometer o pecado imperdoável de não assistir ao mais recente filme do Woody Allen enquanto ainda estava em cartaz (daqui a pouco cometo o mesmo erro com o novo do Almodóvar), me redimi parcialmente assistindo à "Meia-noite em Paris" em casa. Quem já viu, conhece a história - e quem não viu, vá ver, porque é maravilhoso e eu não vou escrever uma sinopse.

Continuando, o filme é lindo, Paris é linda, Owen Wilson mandou muito bem e o Woody Allen finalmente conseguiu diluir a nuvenzinha preta de paranoia que sempre paira sobre a cabeça de seus protagonistas (e que já estava gasta há alguns filmes). O sentimento que permeia esse filme (acompanhado do medo da morte, sempre presente no universo woodyalleniano) é a nostalgia, o apego a um passado não necessariamente vivido, mas apenas idealizado.

O protagonista entra numa espiral digna do clássico oitentista "De Volta Para o Futuro", motivada, de certa forma, por sua idealização de uma Paris em que, de forma mágica, todas as artes viveram seu auge simultaneamente (para quem quiser jogar um pouco mais de luz sobre essa época, a Paris dos anos 1920, recomendo a leitura de "A Autobiografia de Alice B. Toklas", de Gertrude Stein, que também é "personagem" do filme e cujo livro provavelmente deve ter inspirado o Sr. Allen). Quem não iria querer presenciar um momento da Humanidade em que as vidas e as criações de Pablo Picasso, Salvador Dalí, Henri Matisse, Man Ray, Ernest Hemingway, F.Scott Fitzgerald, Cole Porter e Coco Chanel - só para mencionar alguns - se tangenciaram e conviveram de forma simultânea, formando uma massa de energia criativa cujo impacto sentimos até hoje?

Mas a bandeira mais realista que o filme levanta (afinal, o que há de realista em viajar ao passado e cair no meio de uma festinha do Jean Cocteau?) é a de que, por mais que se busque a perfeição do passado (no filme essa busca se dá pela arte), sempre estaremos presos ao presente. Não há máquina do tempo que possa fazer com que uma pessoa se sinta à vontade em um tempo que não é o seu, não importando o quanto o zeitgeist do passado combine mais com seu caráter e suas crenças. Ou, como diria o personagem principal de "Meia-noite em Paris", "essas pessoas (do passado) não têm antibióticos". Quem, afinal, iria querer viver em um mundo sem antibióticos?

Sem entrar muito na história do filme (e estragar o prazer de quem ainda não o assistiu), a reflexão que me sobrou encontra um paralelo na minha relação com o Rio de Janeiro. O passado parece muito bom até o momento em que você se dá conta de que, para estar lá, teria de abrir mão de tudo o que pertence ao tempo atual (e isso não se restringe aos avanços tecnológicos - isso afeta relações, vínculos afetivos). Trouxe o Rio para o meio dessa conversa porque, até conviver mais de perto com a visão que pessoas de fora têm da cidade, sempre pensei em como a vida seria melhor se eu vivesse em qualquer outro lugar que não fosse aqui.

De fato, quando um termômetro de rua registra 40° C no verão eu realmente me pego querendo me mudar para uma província gelada no Canadá, mas aprendi uma lição preciosa nos últimos tempos que tem servido bem ao meu propósito de viver uma vida de confortos e prazeres simples. Passei a ver a cidade com um olhar um pouco estrangeiro, uma mescla do cinismo que é essencial a todo carioca com uma dose de inocência que me permite enxergar o lado leve e bonito da cidade, seus pequenos luxos diários que não custam absolutamente nada e que tiram um pouco do peso de se viver numa metrópole suja, barulhenta e pobre de atitudes cidadãs. É como um relacionamento - você ama aquele sujeito, mas há momentos em que tudo o que você queria era jogá-lo na linha do metrô. Aí você lembra das pequenas atitudes que te trazem um sorriso nos momentos ruins e a vida parece um pouco melhor. Aposto que os parisienses devem pensar a mesma coisa.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Retomando

Então, em um dia quente em meio ao frenesi carnavalesco, sob o jugo de uma persistente crise alérgica, eu resolvo que quero voltar a escrever sobre nada. Mas sobre o que escrever? Sobre o calor, sobre o Carnaval, sobre secreções nasais e gargantas inflamadas, sobre crises e reencontros? Sobre o que falar? Distâncias, separações, beleza? A música que não sai dos meus ouvidos? O desejo que paira na ponta dos meus dedos por arte e satisfação? 

Sobre o que escrever?